SAÚDE PÚBLICA

Matéria: Nutricionista é agente crucial no diagnóstico e tratamento da Sarcopenia

A(o) Nutricionista tem papel primordial não só de intervenção suplementar que ajude a prevenir e tratar a Sarcopenia, como também de rastrear e diagnosticar essa disfunção muscular. A ponderação é da professora e pesquisadora da Divisão de Medicina Renal Baxter Novum, do Instituto Karolinska, em Estocolmo, na Suécia, a Nutricionista brasileira Carla Maria Avesani.

O trabalho de Avesani é desenvolvido com indivíduos que têm doença renal crônica

A Sarcopenia é uma condição fisiopatológica própria do envelhecimento e de doenças crônicas inflamatórias, que aumentam a degradação de proteína no músculo. Leva a alterações na massa, na qualidade e na funcionalidade muscular.

CARLA MARIA AVESANI

Professora e pesquisadora da Divisão de Medicina Renal Baxter Novum, do Instituto Karolinska – Estocolmo/Suécia

“É uma condição da doença que faz com que o músculo perca funcionalidade. A principal função do músculo no nosso corpo é se contrair e fazer movimento. Se a minha massa muscular for insuficiente ou de baixa qualidade, as atividades que dependem da função muscular ficam prejudicadas”, explica a especialista. Ela lembra que isso é essencial, “inclusive, para o coração bater, já que, como músculo involuntário, trabalha a despeito do nosso comando”.

Carla Avesani aponta que há dois grandes tipos de Sarcopenia: a primária ao envelhecimento e a secundária a uma condição patológica, secundária a uma enfermidade. “A primária ocorre conforme vamos envelhecendo, o músculo vai fazendo essa anormalidade. A Sarcopenia do idoso vem do envelhecimento, quando não tem uma doença causando isso. É bem mais lenta, se desenvolve devagar”, reforça.

Estudo no Brasil, poucos passos

Avesani relata outro estudo que acompanha – envolvendo Brasil, França, Suíça e Suécia – no qual pacientes em tratamento de hemodiálise usavam um monitor de atividade física por sete dias, só tirando para tomar banho. Esse trabalho, explica, avalia o número de passos que o paciente consegue dar por semana e o movimento, de maneira geral.

“Reunimos em torno de 600 pacientes. Menos de 10% davam 10 mil passos por dia, como preconiza a OMS. Alguns davam menos de 100 passos diários”, divulga. Como são muito sedentárias pela Sarcopenia, relata ainda, essas pessoas param de se movimentar, vira um círculo vicioso, ficam cada vez mais sedentárias. “Quando tem intervenção, o músculo responde muito bem. Melhoram muito a qualidade de vida”, frisa.

Profissional pode detectar risco e adaptar dieta. O simples fato de a(o) Nutricionista achar que determinado paciente é de risco para a Sarcopenia já lhe credencia a atuar, a modificar a dieta, entrar com nutrientes. Quem indica isso é a Nutricionista Nílian Carla Silva Souza (CRN-4 11100296), doutora pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que atua no Instituto Nacional do Câncer (Inca), na capital fluminense, onde trabalha na pesquisa e na assistência a pacientes com tumores gastrointestinais.
O estudo de doutorado de Nílian Souza, em 2016, lhe rendeu prêmio no
Congresso da European Society for Clinical Nutrition and Metabolism (Espen). “Tive a ideia de comparar alguns métodos usados na prática clínica para avaliar massa muscular, Sarcopenia, área muscular do braço, circunferência de panturrilha, que mensuram a massa esquelética”, revela.

Exame físico. Segundo a cientista, o índice de massa muscular ao nível da terceira vértebra lombar era analisado pela tomografia computadorizada. “A ideia era avaliar qual método poderia ser mais fidedigno à tomografia. E o que melhor concordância teve, que predisse desfecho, com sobrevida, foi o exame físico, o mais simples que existe, feito à beira do leito”, relata.

Não deixa de ser um exame subjetivo, em que uma(um) Nutricionista pode considerar o paciente com um déficit de massa muscular leve e outro pode ver como moderada. É uma demanda prática da(o) Nutricionista, mas ela(e) está habilitada(o) a isso

NÍLIAN CARLA SILVA SOUZA

(CRN-4 11100296) Doutora pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro/RJ

No Inca, as pesquisas de Nílian Souza têm foco na Sarcopenia e no acompanhamento dos pacientes ao longo do tratamento do câncer. Ela conta que usa muito a tomografia computadorizada. “É um exame de conveniência, já pedido pelo médico, seja para estadiar o tumor como para avaliar a resposta ao tratamento. O que faço é utilizá-lo para avaliar a questão muscular”, conta.

Mas, alerta ela, nem todos os tipos de paciente vão ter acesso a uma tomografia, a um “deixa” ou a uma ressonância para serem usados na prática clínica. Ainda assim, o simples fato de você perceber que ele tem déficit já indica que é preciso fazer alguma coisa. Às vezes, quando a(o) Nutricionista tem acesso a um ultrassom, por exemplo, já consegue detectar a perda. De toda forma, não se pode deixar de avaliar esse paciente, que seja com um método acessível, barato, fácil”, defende.

Fita métrica. Nílian Souza recomenda que Nutricionistas que não tiverem métodos mais acurados de aferir o índice de massa muscular do paciente usem uma fita métrica e avaliem a circunferência de panturrilha. “Ela é muito utilizada na prática clínica, você só precisa de uma fita métrica. Temos que avaliar os pacientes”, reforça.

Quando é detectada a Sarcopenia, garante, é muito mais fácil prevenir do que fazer com que esse paciente recupere a massa muscular. “Se você detecta o risco, você consegue fazer a intervenção. Quando o paciente já está com perda de massa muscular, é muito difícil recuperar”, diz.

“Fazemos uma avaliação clínica, além da que a gente está acostumada a fazer, de perda de peso, avaliação subjetiva global. Para definir Sarcopenia, a gente precisa da circunferência de panturrilha e da força de preensão manual – força do aperto de mão do paciente -, que pode ser medida com um dinamômetro. Tudo vai depender muito da disponibilidade de cada Nutricionista. Na prática clínica, é muito usada a mediação da circunferência muscular do braço, da panturrilha”, pondera.

Evidências. “A partir dessas várias avaliações, prossegue a estudiosa, vai-se determinar se o paciente é Sarcopênico ou não, examinar a ingestão alimentar e, a partir disso, decidir se vai precisar de uma suplementação nutricional, uma suplementação proteica. Algumas pesquisas mostram evidências de que a suplementação ajuda a estabilizar a perda de massa muscular”, destaca.

Uma ponderação importante feita por Nílian Souza é que a renda do paciente pode dificultar essa suplementação. “Trabalho no SUS, no INCA, onde a gente consegue fornecer o suplemento nutricional. O acesso é muito importante. Se o paciente é encaminhado à quimioterapia e à radioterapia, a gente faz a intervenção e ele consegue manter o peso, a massa muscular. Consegue responder muito melhor ao tratamento, tolerar melhor a quimioterapia”, afirma.

A pesquisadora reforça a informação de que o risco de o idoso desenvolver Sarcopenia é maior, já que tem a tendência pela idade, que vai diminuindo a função e a massa muscular. Assim, alerta, a pessoa mais velha com câncer tem uma possibilidade muito maior de se tornar Sarcopênico, somando a Sarcopenia relacionada à idade à secundária, associada a doenças crônicas.

A Câmara Técnica de Nutrição Clínica do CRN-9 desenvolveu uma cartilha sobre o tema.