MOBILIZAÇÃO

Matéria Pandemia: Nutricionistas dedicam-se além de suas atribuições

A pandemia de Covid-19 impôs desafios inimagináveis a cada um de nós, e, especialmente, aos profissionais de saúde. As(os) Nutricionistas se desdobraram para ajudar pacientes e a população, em geral, a superar as adversidades deste momento inusitado da história da humanidade.

Em Minas Gerais, Nutricionistas se mobilizaram em vários lugares e frentes, atuando muito além das suas atribuições habituais, para garantir saúde e qualidade de vida para muita gente. Um exemplo claro dessa dedicação ocorreu em Virgínia, no Sul do estado, onde a Nutricionista Marta Maria Fabiano (CRN-9 12282) atua no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Acostumada a trabalhar no planejamento do cardápio dos 710 alunos da rede municipal, incluindo a creche e a zona rural, e na capacitação das merendeiras, com a pandemia, Marta usou todo o seu conhecimento profissional, somado à empatia e criatividade, para garantir alimentação aos estudantes em casa, incluindo no pacote de cuidados as famílias de cada um deles.

Sacolas retornáveis

Como Virgínia é um município cuja economia conta com a força das confecções, que fabricam essencialmente jeans, a Nutricionista teve a ideia de usar sobras desse tecido para produzir sacolas retornáveis, usadas para garantir a entrega da alimentação às famílias de todos os estudantes, em casa.

Falo com lágrimas nos olhos, foi muito gratificante, foram 324 sacolas distribuídas. Eu cortava uma a uma à mão, eram costuradas e carimbadas. Ver isso sendo distribuído aos pais, a sacola indo cheia, os pais agradecendo, e reverter uma programação de aquisição de 3.500 sacolas plásticas para a distribuição desses kits da alimentação escolar foi indescritível.

MARTA MARIA FABIANO

(CRN-9 12282) RT do PNAE em Virgínia/MG

Como as sacolas jeans, produzidas em parceria com indústrias têxteis do município, eram retornáveis – levavam alimentos a uma família e voltavam, para serem abastecidas de novo e serem levadas a outra casa – o meio ambiente também foi beneficiado de várias formas. Por um lado, não foram adquiridas sacolas plásticas, como a Nutricionista
reforçou. E, por outro, excedente do jeans – para se fazer uma calça jeans são gastos 11 mil litros de água – deixou de ir para o lixo. “Conseguimos uma economia de quase duas mil sacolas plásticas. Tentei fazer com a minha realidade, retornavam as sacolas e reabastecíamos para outras famílias”, conta Marta.

Agricultura familiar

Outra experiência ímpar foi levada a cabo em Alvorada de Minas, no Vale do Rio Doce, onde a Nutricionista Marcela Colares Batista (CRN-9 15914) é responsável pela alimentação escolar. Como o município é pequeno, ela conta que tem muitas atribuições, que, além de cuidar da merenda fornecida, passam pelo planejamento do cardápio, relacionamento com fornecedores e distribuição.

“Uma das questões que a gente conseguiu executar bem nesta pandemia foi a aquisição dos agricultores familiares, de frutas, verduras, legumes, quitanda e farinha de mandioca, entre outros produtos”.

COMPRA DE ALIMENTOS DOS AGRICULTORES FAMILIARES

ANTES DA PANDEMIA:

40 A 45%

DURANTE A PANDEMIA:

87%

Com os alunos na escola, segundo Marcela Colares, o consumo acabava sendo menor do que com a oferta do kit enviado para suas casas. “A criança vai dividir o kit com a família. Se a gente restringe ou fraciona muito, não consegue garantir o acesso do estudante. Um pacote de couve, por exemplo, você faz, na escola, para servir no pratinho para várias crianças. Já para enviar à casa, tem que ser um pacote para cada um”, relata. E, por outro, excedente do jeans – para se fazer uma calça jeans são gastos 11 mil litros de água – deixou de ir para o lixo. “Conseguimos uma economia de quase duas mil sacolas plásticas. Tentei fazer com a minha realidade, retornavam as sacolas e reabastecíamos para outras famílias”, conta Marta.

Insegurança alimentar

A maioria das escolas de Alvorada de Minas fica na zona rural, de acordo com a Nutricionista, e o município tem muitas crianças em situação de insegurança alimentar. “A merenda escolar, se não é a principal, é uma das principais refeições do dia. Então, entre os desafios trazidos pela pandemia, além de pensar na alimentação delas fora da escola, de avaliar como garantir o acesso à alimentação, precisávamos oferecer o que conseguíamos entregar na escola”, observa.

No ambiente escolar, esclarece, além da atenção com a quantidade, há o incentivo a uma alimentação mais saudável.

Muitas vezes, a gente recebe a criança com o pai dizendo que o filho não come verdura, não come fruta. E explicamos que a escola é o ambiente propício para se incentivar essa mudança de hábito. E percebemos que conseguimos, sim, muitos resultados

MARCELA COLARES BATISTA

(CRN-9 12282) RT do PNAE em Virgínia/MG

Hospital filantrópico

Em Itabira, na região Central de Minas, a Irmandade Nossa Senhora das Dores – hospital filantrópico que atende de 70 a 80% pelo SUS e o restante por convênios – também precisou adotar uma série de medidas para manter a qualidade e a segurança da atenção nutricional nesta pandemia.

Coordenadora do Serviço de Nutrição e Dietética da entidade, à frente de uma equipe de seis Nutricionistas e duas Técnicas de Nutrição e Dietética, Patrícia Guerra Almeida Bretas (CRN-9 2877) fala das adaptações necessárias aos setores de hemodiálise, oncologia, um pronto socorro anexo, clínica e duas UTIs.

“Fazemos cardápios elaborados para cada patologia, o atendimento da Nutrição Clínica, acompanhamento do paciente, orientação nutricional. Neste momento, o estresse é bem maior, com a preocupação de evitar o alastramento da Covid. A preocupação de que não ocorra a transmissão de paciente para paciente”, pondera.

Segundo a Nutricionista chefe, mesmo sendo um hospital filantrópico, que não conta com recursos à disposição, não foram medidos esforços para manter a segurança.

No refeitório, aumentamos o horário de distribuição de refeições. Antes, os próprios colaboradores se serviam. Hoje, o serviço de Nutrição e Dietética entrega a refeição a eles. Servíamos aos pacientes em xícaras, agora, é tudo descartável.

PATRÍCIA GUERRA ALMEIDA BRETAS

(CRN-9 2877) Coordenadora do Serviço de Nutrição e Dietética da Irmandade Nossa Senhora das Dores, Itabira/MG

Tudo isso, pondera ainda, sem contar a questão do vestuário, que passou a ser bem maior do que antes da pandemia. “Não é fácil fazer uma paramentação para atender de paciente para paciente. Aumenta o trabalho e o custo, mas veio para ficar. Fizemos treinamentos sobre a importância da higienização de mãos, uso correto do álcool, dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s), como óculos e máscaras”, observa também.

NA APAC DE ITAÚNA, DEDICAÇÃO E AMOR DA NUTRICIONISTA AMENIZAM REFLEXOS DA PANDEMIA.

A adoção de mais medidas de proteção, em razão da pandemia, na Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac) de Itaúna, na região Central de Minas, se tornou desafiadora especialmente para a única Nutricionista da instituição, Caroline de Freitas Amaral Silva (CRN-9 9405), que está lá há 11 anos, desde que se formou.

Nesta pandemia, a gente teve que restringir as visitas. Recebemos
pessoas do mundo inteiro, e, houve
um momento em que não havia
mais ninguém, foi uma época muito
difícil. Todos os que trabalham na
padaria que mantemos e na cozinha
são recuperandos, do cozinheiro a
quem fabrica os pães. O uso do
álcool exige cuidados especiais,
já que muitos que lá estão são
dependentes químicos

CAROLINE DE FREITAS AMARAL SILVA - CRN-9 9405

MEDIDAS DE PROTEÇÃO. Caroline Amaral explica que precisou reforçar os treinamentos na padaria, que, além de fornecer produtos para consumo interno na Apac e para as escolas da região, é aberta à venda para o público externo. O mesmo foi feito na cozinha, a respeito do uso de máscaras, luvas e do álcool em gel, para higienizar as mãos contra o novo coronavírus. “Lá, o álcool fica só comigo, esterilizo as coisas, as mãos e o mantenho em meu poder”, revela.

Tivemos que separar os funcionários que almoçavam com os recuperandos. A gente chega da rua e precisa evitar levar o vírus lá para dentro, então, começamos a almoçar separado deles. A essência da Apac é o funcionário junto do recuperando. Quando fomos restringindo nossa entrada para almoçar, os recuperandos sentiram muito, principalmente os do regime fechado, porque as famílias já não estavam indo, em função da Covid-19”, lamenta a Nutricionista.

CONVERSA. Para que os recuperandos entendessem que não poderiam almoçar com os funcionários durante a pandemia, Caroline diz que houve muita conversa. Ela é a única que continua fazendo a refeição junto aos mesmos. “É um pouco difícil, porque tenho que ficar indo aos dois regimes, fechado e semiaberto. Acabo demorando um pouco mais, mas, em outras questões, foi até tranquilo”, afirma.

Para ela, a Apac é um ambiente que requer muito espiritualmente de quem trabalha lá. Mas Caroline ama o que faz. “Lá foi a mão de Deus na minha vida. Às vezes, recebo propostas para trabalhar em outros lugares, mas não consigo ir. É muito gratificante, além de exercer minha profissão, ajudo o próximo. Eles estão ali para se ressocializar, voltar à sociedade, a gente tem que confiar. A proposta é que saiam de lá recuperados e que possamos fazer parte dessa história. Eles saem de lá muito gratos. Vejo gente que trabalhou comigo atuar em outras cozinhas, em padarias, já recuperada”, comemora.

A Apac de Itaúna mantém ainda uma horta, da qual saem os alimentos para a cozinha, segundo Carolina Amaral. Há também um horto, onde se preparam as mudas, que são doadas e, às vezes, vendidas em feirinhas, para arrecadar algum dinheiro para a instituição. Todas essas atividades – cozinha, padaria, horta e horto funcionam como oficinas para os recuperandos.

AUXÍLIO EXTERNO. Ao longo de quatro meses de pandemia, de outubro a janeiro de 2021, a Nutricionista conta que realizaram o projeto “Alimentando a Esperança”, com o preparo e fornecimento de sopa para moradores de rua do município. “Oferecíamos a sopa duas vezes por semana. O próprio cozinheiro que estava designado para trabalhar na equipe do dia se encarregava de fazer, com a ajuda de outros recuperandos. Na hora de distribuir, eu e algum outro funcionário íamos com um motorista da Apac”, lembra. A expectativa dela é de que o projeto seja retomado no fim deste ano.