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Consumo de frutas, legumes e verduras no país está longe do ideal

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu 2021 como o “Ano Internacional de Frutas, Legumes e Verduras”, com o objetivo de conscientizar sobre a importância de incluir esses itens na alimentação, para melhorar a saúde da população. No Brasil, embora o país seja o terceiro maior produtor de frutas do mundo e um dos principais produtores e exportadores agrícolas, há pesquisas e levantamentos que apontam para o baixo consumo desses alimentos in natura.

 

Consultor da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO)– braço da ONU para Alimentação e Agricultura – no escritório regional da América Latina e Caribe, o agrônomo, mestre e doutor em Economia, Altivo Almeida Cunha, afirma que a intenção é estimular o consumo de frutas, verduras e legumes, que ainda está aquém do recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). “É uma alternativa que promove dieta saudável e integrada às realidades produtivas locais e incentiva que se consumam produtos de safra e da sua região. O grande apelo é para diminuir e evitar a ingestão dos alimentos ultraprocessados”, reforça ele.

 

Cunha pondera que é necessário buscar alternativas:

Você tem a opção de um fornecimento que seja nutritivo, saboroso e atenda aos hábitos regionais. É importante, por exemplo, que frutas e verduras que são típicas aqui em Minas estejam disponíveis e que haja canais de distribuição, como feiras diretas ao consumidor e sacolões. E esses produtos precisam ter parâmetros de sanidade, ninguém quer algo inadequado ao consumo, como os contaminados por agrotóxicos.

ALTIVO ALMEIDA CUNHA

Consultor da FAO Brasil

Ele destaca que o estabelecimento do “Ano das Frutas e Verduras” foca também no produtor. “Importa saber quem produz. Há as formas de produção socialmente mais justas, como a produção familiar, agricultores familiares de uma região, que geram desenvolvimento para o local. Se você prefere comprar da sua região, em vez de consumir algo que venha de longe, está garantindo o desenvolvimento e a produção do seu entorno. O que você escolhe comer pode transformar o local em que vive. A escolha alimentar não é apenas do alimento, mas também de desenvolvimento, de estímulo regional, de valorização da produção”, reforça.

Confira na fala do profissional a importância da estipulação do “Ano Internacional de Frutas, Legumes e Verduras”.

Gastronomia hospitalar

Responsável pela parte clínica da Unidade de Alimentação e Nutrição (UAN) da Fundação São Carlos, em Lagoa da Prata, no Oeste de Minas, a Nutricionista Luciene Florinda Silva Correia (CRN9 2.890) destaca que o consumo de frutas e verduras tem uma responsabilidade incrível no nosso organismo. “Sabemos da sua importância e também da importância da sua variedade. Temos grupos de frutas e verduras que nos oferecem determinadas qualidades de vitaminas e minerais”. Ela cita como exemplo:

Luciene salienta que balancear o consumo desses alimentos ajuda a garantir harmonia ao organismo. “Vale o velho ditado: quanto mais colorido for o prato, maior o fornecimento de vitaminas e minerais”, lembra.

 

Para estimular esse tipo de alimentação saudável em seu local de trabalho, ela desenvolveu o projeto “Trivial Gastronômico”. A nutricionista conta que a repercussão tem sido muito positiva. “O paciente já se encontra debilitado e, muitas vezes, com o apetite reduzido. Assim, receber um prato com preparação toda elaborada faz muita diferença. Estimula o apetite, melhora o conceito alimentar, aguça o sabor, deixa a preparação com aparência melhor, mais glamorosa. Satisfaz pacientes e seus familiares”.

 

Certa de que a gastronomia tem o poder de agradar e encantar, Luciene diz que conseguiram, com o projeto, melhorar o ambiente hospitalar e, aos poucos, têm alterado o conceito e o preconceito que recai sobre a comida de hospital, fazendo com que seja vista como gastronomia hospitalar. Consequentemente, divulga, isso reduz o índice de desnutrição no ambiente hospitalar.

 

Ainda sobre o “Ano das Frutas e Verduras”, a profissional de Lagoa da Prata aponta que o ideal é consumir variedades de ambas. Ingerir uma única fruta ou sempre a mesma verdura, alerta, não é suficiente para suprir as necessidades nutricionais.

O aumento do consumo desses alimentos diminui os riscos para a saúde, porque são ricos em antioxidantes, que combatem os radicais livres e ajudam a prevenir muitas doenças.

LUCIENE FLORINDA SILVA CORREIA

(CRN-9 2890) – Nutricionista da Fundação São Carlos
Lagoa da Prata/MG

Ela acredita que, uma salada bem atrativa ou uma preparação à base de frutas, se bem elaborada, agrada até as crianças. “Tenho duas filhas e, quando preparo uma sobremesa com frutas e faço uma ‘decoração’, elas comem mais do que espero. Sempre pedem para repetir, às vezes, mais de duas vezes. E no hospital é a mesma coisa”, reitera.

Quantidade ideal

A recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) é que cada adulto consuma 400 gramas de frutas, verduras e legumes por dia. Além dessa informação, a Nutricionista Luiza Carla Vidigal Castro (CRN-9 1468), que é mestre em Ciência da Nutrição e doutora em Ciência e Tecnologia de Alimento, professora da Universidade Federal de Viçosa (UFV),
recomenda que é importante procurar variar e incluir esses alimentos em todas as
refeições.


“Se você come uma fruta no café da manhã, no lanche e na sobremesa, já são três ao dia.
Hortaliças e legumes podem ser incluídos no almoço, no jantar e, também, nos lanches”,
ensina ela, alertando:

Pelos nossos estudos, temos visto que a alimentação saudável tem sido muito mais acessível do que os produtos ultraprocessados. Ao contrário do que muita gente pensa, se o consumidor souber escolher onde comprar, encontrará frutas, legumes e verduras a preço e qualidade bons.

LUIZA CARLA VIDIGAL CASTRO

(CRN-9 1468), Nutricionista professora da UFV

“Os estudos mostram que as pessoas que consomem frutas, verduras e legumes diariamente têm menores chances de ter Doenças Crônicas Não Transmissíveis. Eles são ricos em vitaminas, minerais e fibras, e, por isso, importantes para o bom funcionamento do organismo como um todo”, alerta

Menos agrotóxicos

Luiza Castro revela que, no trabalho, usa muito o “Guia Alimentar para a População Brasileira” como referência. “Nós que trabalhamos com a formação de Nutricionistas devemos orientá-las(os) a estimular o consumo de frutas, legumes e verduras regionais. Assim, a exposição aos agrotóxicos, de certa forma, diminui. Agora, por exemplo, estamos na safra de acerola. Na propriedade dos meus pais, o pé está carregado, e eles não usam defensivos agrícolas”, pondera.

 

Quando não se sabe a procedência do produto, como é o caso de frutas como a maçã, muito consumida no Brasil inteiro, a pesquisadora recomenda uma estratégia de uso que diz passar para seus alunos: retirar a casca. Mesmo sabendo que nela há vitaminas, minerais e fibras, ela afirma que a polpa também reúne esses nutrientes. “Tem um estudo que mostra que tirar a casca elimina em 30% a concentração de agrotóxicos”, informa

A professora esclarece que, “quando a ONU elege o ‘Ano Internacional das Frutas e Verduras’, o faz alinhada com os ‘Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)’, um apelo global à ação para acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima e garantir que as pessoas, em todos os lugares, possam desfrutar de paz e de prosperidade”. O que fomenta o consumo consciente são programas como o “Fome Zero” e o fortalecimento da agricultura familiar, explica. “Nossa linha de trabalho aqui, junto à universidade, é a de incentivar as pessoas a se alimentarem dando preferência à agricultura agroecológica, a comprar diretamente do produtor, ir às feiras livres, aos circuitos curtos de produção. Isso ajuda a fortalecer a agricultura familiar, apoia o escoamento da produção e a geração de renda. Outro benefício é que é maior a chance de se adquirir produtos de qualidade, a preços melhores”, observa.

Recomendação para o consumo de frutas e verduras: